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sábado, 23 de abril de 2011

Eu e Samarkanda

Eu vim de longe, de muito longe, dum tempo e espaço que a memória não fixa mas que a alma e o coração conhecem.

Sou feito de uma mistura de modesto barro trasmontano e beirão; barro de que sao feitos os simples.

Sou um projecto inacabado e imperfeito que correu mundo, aprendendo,buscando, analisando e pensando.

Do meu pai, beirão, ficou-me algum gosto pela boémia.

Da minha mãe,trasmontana, o vício pelo trabalho.

Enfim... sou filho de uma estranha dualidade conflituosa, quase bipolar,que por vezes tive dificuldade de gerir e compreender.

Do avô materno,carpinteiro e músico aprendi a leveza, os afetos e a bondade que jamais em outro alguém conheci.

Em áfrica, onde passei a juventude e onde formei o caracter, aprendi a compreender o tempo que corre devagar, devagarinho, num convite cheio de mistério, languidão e feitiço, mostrando-me não valer a pena correr por aquilo que já é e sempre será... e toda a corrida e fuga terminará sempre, mas sempre, num encontro em Samarkanda.

E quando esse meu encontro em Samarkanda chegar e a minha luz se extinguir, espero não ser lembrado como o barro que fui mas sim como a porcelana em que desejei transformar-me.

E então minhas filhas, meus amigos, voltarei para longe, para muito longe e todos os que me amam e estimam fiquem tranquilos, pois comigo irá o meu coração e lá, onde espero chegar, já não terei medos nem receios e onde quer que me encontre serei feliz num local onde todos nos iremos encontrar.